Friday, July 22, 2011

mais um momento Nostalgia

E já que estamos numa onde de memórias, deixo-vos com outro post reminiscente de épocas estivais e não só.

Mood pessoal
Não sei porquê, lembrei-me de quando éramos crianças.
As recordações vieram em formato slide, umas atrás das outras, sem cronologia definida. Pensei nos tempos do Colégio, nesses tempos que me parecem - a esta distância - ter sido regulados pelas estações do ano. Primavera, Verão, Outono e Inverno eram estações bem demarcadas, sucedendo-se como etapas rituais dos anos que iam crescendo em nós.
A Primavera cheirava a Primavera. Os dias amanheciam frescos. É irrepetível o cheiro de uma manhã de Primavera, a abrir o dia com uma réstia do frio da noite. A leveza e a consistência desse ar é inimitável!
Na Primavera chegavam as borboletas e as andorinhas, os morangos e depois as cerejas. Festejava o meu aniversário, convidava amiguinhos de outras turmas para virem à minha sala cantar os parabéns e comer uma fatia de bolo de chocolate ou de ananás. Depois, acabava o ano lectivo. As férias grandes!
O Verão cheirava a livros, que os Pais tinham tentado esconder desde a Feira do Livro - para que os ditos livros durassem até às férias grandes. Mas eu e o meu irmão descobríamos sempre o esconderijo e quando chegava o Verão já não sobrava grande stock por ler. O meu irmão era mais dado a actividades outdoors, quer dizer bicicleta pelas redondezas e futebol no pátio das garagens. Mas eu não. Eu sempre fui de livros. O Verão dos livros era interrompido pelo Verão da praia.
Uma vez por outra, o Verão cheirava também a dias passados no escritório da Mãe. Num tempo em que as Mães ainda podiam, quando sem alternativas, levar os filhos para o local de trabalho. O escritório era antigo, cheirava a madeira velha, mas também encerada, e rangia o soalho. A Mãe conseguia disciplinar-nos para fazermos os deveres escolares. E deixava-nos escrever à máquina. No tempo em que não havia computadores ou nós nem suspeitávamos da sua existência. Eu e o meu irmão saíamos à hora do lanche, saíamos do escritório e entrávamos no calor do Verão que nos devolvia brilhos do Douro ali de frente para nós. Virávamos à direita e seguíamos para o café que também tinha quiosque. Podíamos comprar livros do Tio Patinhas, e comíamos pão com fiambre, e bebíamos já não me lembro o quê. Era Compal de pêssego, com certeza!
O Verão também era praia. Não seria Verão sem praia!! As praias da minha infância são feitas de sol e nevoeiro, gelados da Olá, castelos na areia e colecções de conchinhas. Memória, Praia dos Beijinhos, Aguda, Pedras da Agudela. E, na incursão anual ao Algarve, as praias da infância foram Monte Gordo e Retur. Retur, que raio de nome para dar a uma praia ... mas que boas recordações de infância!
E o Verão era também a casa dos Avós, tardes de calor, a sombra das videiras, a cozinha tão fresquinha, o cheiro do avental da Avó, o pêndulo do relógio a embalar sestas despreocupadas. E torturar caracóis que recolhíamos do muro do quintal. E eu e o meu irmão postos no muro a ver passar e a perguntar aos passantes se eram da APU. Dava-nos para cada uma!
O fim do Verão cheirava a cadernos novos e aos plásticos dos estojos e restante material escolar. Forrávamos os livros e pintávamos as capas com todas as cores disponíveis nos nossos conjuntos de canetas Molin! E recomeçava o Colégio. Fazíamos sempre redacções sobre as férias de Verão.
E à medida que o Outono avançava, cheirava a castanhas. E anoitecia mais cedo.
Tinha aulas de Lavores, que abominava. Eu e a minha melhor amiga (era o tempo das melhores amigas) fomos formalmente repreendidas por usarmos as agulhas para riscar as costas das cadeiras da frente em vez de bordar flores nos saquinhos para guardanapos. Agora só uso guardanapos de papel. E quando porventura uso guardanapos a sério, não os guardo nos saquinhos com flores bordadas nas aulas de Lavores da 3a-classe.
O Inverno cheirava a Natal e a guarda-chuvas molhados. E tínhamos kispos. Isto era no tempo em que todos os casacos eram kispos, quer fossem quer não fossem.
E depois de muito tempo de escuro e chuva, lá chegava pontual a Primavera.
As estações encadeavam-se num ritmo sem sobressaltos, ou é assim que eu as relembro. Num tempo em que não havia morangos e cerejas todo o ano. Em que íamos para o escritório da Mãe e podíamos escrever à máquina. E na praia ouvia-se ao longe olha a baaatatiinha e bola de berliiiiim. Éramos crianças.

(
Post originalmente publicado neste blog a 30 de Maio, 2006)

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4 Comments:

Blogger Andorinha said...

Era tão parecido com o meu. Só que em vez de escritório íamos ao cabeleireiro, e a praia era feita com o meu Pai e com os meus primos pq a minha Mãe não gosta de praia. E só eu é que gosto de ler (o meu irmão abomina, é uma pena), e o meu Pai dava-me livros o ano inteiro.
Obrigada por me trazeres um sorriso aos lábios. Bem fixolas!

22 July, 2011 13:09  
Blogger Carlos Barbosa de Oliveira said...

Também andou pela Aguda? Como disse noutro post, andamos a pisar as mesmas areias em épocas diferentes.

27 July, 2011 00:07  
Blogger Carlos Barbosa de Oliveira said...

Só para dizer que tem uma lembrancinha lá no CR

29 August, 2011 13:04  
Blogger Sinapse said...

Obrigada, Carlos! :)

01 September, 2011 06:24  

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